Existe uma situação curiosa em pequenas empresas.
O faturamento cresce.
O número de clientes aumenta.
A equipe fica maior.
A empresa começa a ocupar um espaço mais relevante no mercado.
Mas, internamente, parece que tudo ficou mais difícil.
Mais mensagens.
Mais planilhas.
Mais reuniões.
Mais aprovações.
Mais problemas para resolver.
Mais coisas dependendo do dono.
A empresa cresceu, mas a sensação não é necessariamente de evolução.
Em alguns casos, parece que ela apenas ficou maior.
Isso acontece porque crescimento de faturamento e maturidade operacional são coisas diferentes.
Uma empresa pode vender mais sem necessariamente desenvolver processos melhores, controles mais adequados ou uma estrutura de gestão capaz de acompanhar o novo volume.
E, quando isso acontece, o crescimento começa a expor problemas que antes eram pequenos demais para serem percebidos.
Quando a empresa é pequena, a improvisação funciona melhor
Imagine uma empresa com poucos clientes.
O dono conhece praticamente todos.
Sabe quem está esperando um orçamento.
Lembra qual fornecedor deve ser acionado.
Conhece os valores negociados.
Consegue acompanhar os pagamentos.
Se alguém tem uma dúvida, pergunta diretamente para ele.
Esse modelo pode funcionar durante bastante tempo.
O problema aparece quando o volume aumenta.
O dono continua tentando administrar 100 clientes com a mesma lógica que usava para administrar 20.
A equipe continua utilizando a mesma planilha.
As informações continuam espalhadas.
Os processos continuam baseados em memória.
A diferença é que agora existem muito mais coisas acontecendo ao mesmo tempo.
O crescimento não criou necessariamente a desorganização.
Ele tornou a desorganização mais cara.
Faturamento não mede maturidade operacional
É tentador utilizar o faturamento como principal indicador de evolução da empresa.
E ele é, obviamente, uma medida importante do desempenho financeiro.
Mas uma empresa pode aumentar sua receita enquanto mantém uma operação pouco estruturada.
Pode vender mais porque encontrou novos clientes, aumentou preços, expandiu uma região ou passou a oferecer novos serviços.
Nada disso garante que:
os processos estejam documentados;
as responsabilidades estejam claras;
as informações estejam centralizadas;
os indicadores estejam disponíveis;
a equipe consiga trabalhar sem depender do dono;
os sistemas estejam integrados;
os controles financeiros estejam organizados.
É possível crescer comercialmente enquanto a estrutura operacional permanece praticamente igual.
Por algum tempo, isso pode funcionar.
Até que deixa de funcionar.
O crescimento aumenta a complexidade
Uma das razões para isso é simples:
crescer significa lidar com mais coisas.
Mais clientes geram mais atendimentos.
Mais vendas geram mais pedidos.
Mais pedidos geram mais operação.
Mais operação gera mais informação.
Mais informação gera mais necessidade de controle.
E cada nova camada cria possibilidades de erro, atraso e retrabalho.
Uma empresa que tinha cinco funcionários talvez conseguisse resolver tudo conversando.
Com 30 pessoas, a comunicação informal começa a ter limites.
Uma atividade que antes precisava de uma planilha pode passar a exigir um sistema.
Uma decisão que antes dependia apenas do dono pode precisar de critérios.
Um processo que antes era conhecido por todos precisa ser documentado.
O crescimento, portanto, não exige apenas mais capacidade.
Ele exige mais estrutura.
O dono continua sendo o sistema
Um dos sinais mais claros de crescimento sem maturidade operacional é a centralização.
O dono continua sendo a pessoa que sabe:
quanto cobrar;
onde está cada informação;
qual cliente está esperando resposta;
quem deve resolver determinado problema;
qual fornecedor deve ser chamado;
qual funcionário conhece determinada atividade.
Quando tudo passa por uma pessoa, a empresa pode crescer em faturamento sem realmente criar capacidade de gestão.
O resultado aparece rapidamente.
O dono fica sobrecarregado.
As decisões acumulam.
A equipe espera respostas.
Problemas simples chegam até a direção.
E o empresário passa mais tempo resolvendo o funcionamento da empresa do que pensando em como fazê-la evoluir.
Como já discutimos em outro conteúdo do Foco PME, delegar não significa perder o controle. Significa criar mecanismos para acompanhar a operação sem precisar executar ou aprovar cada detalhe.
As planilhas começam a se multiplicar
Outra característica comum é a proliferação de controles.
Uma planilha para vendas.
Outra para estoque.
Outra para clientes.
Outra para financeiro.
Outra criada por um funcionário porque a primeira não tinha determinada informação.
Depois alguém cria uma sexta para consolidar as outras cinco.
A planilha não é o problema.
Em muitas situações, ela é uma ferramenta perfeitamente adequada.
O problema aparece quando a empresa começa a construir a própria operação em torno de controles paralelos.
Isso aumenta o risco de informação desatualizada, versões diferentes do mesmo dado e dependência de quem criou determinado controle.
À medida que a empresa cresce, vale perguntar:
Qual informação precisa existir em um único lugar?
Essa pergunta simples pode revelar uma quantidade considerável de complexidade desnecessária.
O retrabalho cresce junto com as vendas
Existe um efeito curioso do crescimento desorganizado.
A empresa vende mais.
Mas também precisa corrigir mais coisas.
Um pedido volta porque faltou informação.
Um orçamento precisa ser refeito.
Uma nota precisa ser corrigida.
O cliente precisa explicar novamente o que já havia informado.
A equipe precisa procurar documentos.
Um funcionário refaz algo que outra pessoa já tinha feito.
O aumento do retrabalho pode acompanhar o crescimento do negócio.
Nesse caso, contratar mais pessoas pode até aumentar a capacidade no curto prazo, mas não necessariamente resolve a origem do problema.
Se o processo estiver errado, mais pessoas podem simplesmente executar o mesmo processo errado em maior escala.
É por isso que crescimento costuma exigir uma revisão das rotinas.
O processo que funcionava antes pode não funcionar mais
Uma das armadilhas do crescimento é acreditar que um processo continua adequado porque ele funcionou no passado.
Funcionou.
Mas para qual tamanho de empresa?
Uma rotina criada quando existiam 10 clientes pode não ser adequada para 200.
Um controle financeiro criado para poucas movimentações pode não acompanhar centenas de transações.
Um atendimento baseado em WhatsApp pode funcionar com poucos contatos e se tornar difícil de administrar quando o volume aumenta.
Uma reunião semanal que envolvia cinco pessoas pode ficar improdutiva quando passa a envolver 20.
Isso não significa que tudo precise ser substituído.
Significa que processos precisam acompanhar a realidade que a empresa passou a ter.
O crescimento pode esconder problemas durante algum tempo
Talvez esse seja o ponto mais perigoso.
Quando as vendas estão crescendo, problemas operacionais podem parecer secundários.
A empresa está vendendo.
Os clientes estão chegando.
A receita está aumentando.
Existe a sensação de que depois será possível “arrumar a casa”.
Só que o crescimento também aumenta o custo de organizar depois.
Quanto mais clientes, pessoas, fornecedores, sistemas e informações existem, maior é o esforço necessário para mudar processos.
Por isso, alguns problemas que parecem pequenos durante uma fase de crescimento podem se transformar em limitações importantes mais adiante.
Como saber se a empresa cresceu mais rápido que sua operação?
Alguns sinais são bastante claros.
1. O dono precisa participar de quase todas as decisões
Se decisões simples continuam dependendo do proprietário, existe um nível elevado de centralização.
2. A equipe trabalha muito, mas o retrabalho também cresce
Mais horas trabalhadas não necessariamente significam mais capacidade produtiva.
3. Existem várias versões da mesma informação
Planilhas, mensagens, e-mails e sistemas apresentam números diferentes.
4. Ninguém sabe exatamente quem é responsável por determinada atividade
As pessoas executam tarefas, mas as responsabilidades não estão claras.
5. Novos funcionários demoram muito para aprender
O conhecimento está na cabeça das pessoas, e não nos processos.
6. A empresa resolve problemas repetidos como se fossem novidades
Todo mês surge o mesmo problema e a equipe volta a improvisar a solução.
7. O gestor não consegue enxergar a operação sem perguntar
Para saber o que está acontecendo, ele precisa ligar para alguém, procurar uma mensagem ou abrir várias planilhas.
Esses sinais não significam necessariamente que a empresa esteja mal administrada.
Eles indicam que a estrutura operacional talvez não tenha acompanhado o crescimento.
Crescer exige transformar conhecimento em processo
Quando a empresa é pequena, boa parte do conhecimento pode permanecer informal.
Conforme ela cresce, esse conhecimento precisa começar a sair da cabeça das pessoas e entrar na operação.
Isso pode acontecer por meio de:
processos;
checklists;
sistemas;
indicadores;
responsabilidades claras;
registros;
padrões de atendimento;
critérios de decisão.
Não significa burocratizar.
Significa tornar a operação menos dependente de memória e improvisação.
E onde entra a tecnologia?
Tecnologia pode ajudar bastante, mas não deveria ser o primeiro passo.
Antes de comprar um sistema, implantar uma plataforma ou automatizar uma tarefa, é preciso entender o processo.
Caso contrário, existe o risco de simplesmente digitalizar a desorganização.
Uma empresa pode ter um software sofisticado e continuar sem saber:
quem faz o quê, quando, por que e com qual resultado esperado.
A tecnologia funciona melhor quando existe um processo minimamente compreendido.
A partir daí, ferramentas digitais, automações e inteligência artificial podem ajudar a reduzir trabalho manual, organizar informações e aumentar a capacidade da equipe.
Mas tecnologia não substitui o desenho da operação.
Crescer de verdade é aumentar capacidade, não apenas volume
Talvez a diferença mais importante esteja aqui.
Uma empresa que cresce apenas em volume precisa fazer cada vez mais coisas.
Uma empresa que desenvolve maturidade operacional consegue fazer mais sem aumentar a complexidade na mesma proporção.
Ela começa a criar processos melhores.
Distribui responsabilidades.
Usa indicadores.
Automatiza tarefas repetitivas.
Centraliza informações importantes.
Cria autonomia.
E passa a enxergar a operação de maneira mais clara.
O objetivo não é fazer uma pequena empresa parecer uma grande corporação.
É criar uma estrutura proporcional ao tamanho e à complexidade que o negócio alcançou.
O crescimento é um convite para revisar a operação
Quando o faturamento cresce, talvez a primeira pergunta seja:
“Como podemos vender ainda mais?”
É uma pergunta válida.
Mas existe outra que merece aparecer na mesma conversa:
“Nossa operação está preparada para atender esse crescimento?”
Porque vender mais sem conseguir organizar a operação pode transformar crescimento em sobrecarga.
E uma empresa não precisa esperar o problema ficar grande para começar a estruturar seus processos.
Às vezes, o melhor momento para organizar a casa é justamente quando o negócio está crescendo.
Antes que a própria expansão torne isso mais difícil.
Crescer é aumentar o negócio. Evoluir é aumentar também a capacidade de administrá-lo.